Brasil
Carvão mineral no Brasil: estudo expõe contradição do governo entre discurso verde e contratos até 2040
O carvão mineral no Brasil virou alvo de um novo alerta internacional depois que o relatório Boom and Bust Coal 2026, da Global Energy Monitor, apontou uma contradição na política energética do país.
Pela primeira vez, o Brasil eliminou todas as propostas de novas usinas termelétricas a carvão. No entanto, ao mesmo tempo, o país ampliou contratos e incentivos para manter usinas antigas funcionando até, pelo menos, 2040.
Ou seja, o discurso ambiental vai para um lado, mas a conta de luz e os contratos seguem por outro.
Carvão mineral no Brasil: país abandona novas usinas, mas mantém as antigas
O estudo mostra que o carvão mineral no Brasil vive uma espécie de “meio-termo” político.
De um lado, o país saiu da lista de novos projetos a carvão. Além disso, com a saída do Brasil e de Honduras, a América Latina ficou sem novos empreendimentos de usinas a carvão mineral em desenvolvimento.
Por outro lado, o governo e o Congresso mantiveram políticas que prolongam a vida de usinas já existentes.
Aí está a contradição. O Brasil posa de campeão da transição energética, mas ainda segura contratos caros e poluentes por décadas.
E, como sempre, alguém paga a conta. Normalmente, esse alguém atende pelo nome de consumidor brasileiro.
Relatório Boom and Bust Coal 2026 vê alta global na capacidade de carvão
O relatório da Global Energy Monitor analisou a expansão global do carvão.
Segundo o documento, a capacidade global de carvão cresceu 3,5% em 2025. No entanto, a geração efetiva caiu 0,6%, o que mostra uma distância entre o tamanho das usinas e o uso real dessa energia.
A China concentrou novos projetos e reativações, somando 161,7 gigawatts no ano passado. Já a Índia registrou 27,9 gigawatts em novas propostas.
Entretanto, o número de países com projetos para criar usinas caiu de 38 para 32 em um ano.
Além do mais, quase 70% das unidades a carvão previstas para desativação em 2025 não saíram de operação. Isso inclui 69% das desativações previstas na União Europeia e 59% nos Estados Unidos.
Carvão mineral no Brasil e a disputa por usinas no Sul
O carvão mineral no Brasil também aparece no centro de disputas sobre usinas no Rio Grande do Sul.
Em fevereiro de 2025, o Ibama encerrou o licenciamento da usina Nova Seival, prevista para Candiota e Hulha Negra, com potência de 726 megawatts.
Depois, em novembro, o processo da usina Ouro Negro, prevista para Pedras Altas, também foi arquivado. O projeto tinha potência estimada de 600 megawatts.
Portanto, na prática, o país fechou a porta para novas usinas desse tipo.
No entanto, a porta dos contratos antigos continuou bem aberta.
Governo prorrogou compras obrigatórias de energia a carvão até 2040
A grande virada veio logo após a COP30, realizada em Belém.
Em 24 de novembro de 2025, um dia depois do encerramento da conferência climática, a Câmara aprovou a Lei nº 15.269. A norma prorrogou até 2040 as compras obrigatórias de energia elétrica gerada por usinas a carvão.
É quase uma cena pronta para charge política.
O Brasil faz discurso bonito sobre clima em evento internacional. No dia seguinte, mantém a compra obrigatória de uma das fontes mais criticadas pelos ambientalistas.
Consequentemente, o estudo aponta que o país manda sinais contraditórios ao mercado e ao mundo.
Contratos bilionários mantêm termelétricas ligadas
Em janeiro de 2026, o governo federal contratou o Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, em Santa Catarina, até 2040. O custo anual estimado chega a R$ 1,8 bilhão.
Além disso, em março, o Leilão de Reserva de Capacidade de 2026 contratou 1,4 gigawatt de capacidade de carvão importado para as usinas Itaqui, no Maranhão, e Pecém I e Pecém II, no Ceará.
Em abril, o Ministério de Minas e Energia aprovou a renovação do contrato da usina de Candiota, no Rio Grande do Sul, até 2040. O custo anual estimado é de R$ 859 milhões.
Portanto, o país não constrói novas usinas, mas segue colocando dinheiro pesado nas antigas.
Carvão mineral no Brasil pode custar mais de R$ 100 bilhões até 2040
O relatório afirma que a geração de energia a carvão no Brasil segue sustentada por contratos e subsídios embutidos nas tarifas de energia elétrica.
Com a prorrogação aprovada em 2025, os custos acumulados podem passar de R$ 100 bilhões até 2040.
E aí entra o ponto que todo brasileiro entende.
Não existe subsídio grátis. Se o governo decide manter uma estrutura cara, o custo aparece em algum lugar.
Pode aparecer na tarifa. Pode aparecer no orçamento. Mas, no fim, a conta sempre chega para o cidadão.
Justiça suspendeu renovação de licença em Candiota
A usina de Candiota também enfrenta disputas judiciais e questionamentos ambientais.
Segundo o relatório citado pela Agência Brasil, a estimativa é de R$ 125 milhões em multas ambientais não pagas. Além disso, decisão da Justiça Federal do Rio Grande do Sul suspendeu, em maio de 2026, a renovação da licença de operação de Candiota III.
A decisão determinou que futuras autorizações dependam da análise dos impactos climáticos, das emissões de gases de efeito estufa e do passivo ambiental acumulado.
Em contraste, o governo segue discutindo medidas que podem prolongar ainda mais essa dependência.
O Canal Solar registrou que tramita na Câmara o PL nº 1.371/2025, que prevê estender contratos de usinas a carvão até 2050.
Discurso verde encontra a realidade da política energética
A polêmica sobre o carvão mineral no Brasil mostra uma velha marca da política nacional: o discurso fica bonito no palco, mas a decisão real acontece no contrato.
O país tem energia renovável abundante, como hidrelétrica, solar, eólica e biomassa. Ainda assim, mantém estruturas caras, antigas e cercadas de críticas ambientais.
Por outro lado, também existe uma discussão legítima sobre segurança energética. O Brasil precisa de energia firme para evitar apagões e garantir estabilidade ao sistema.
No entanto, o debate precisa ser honesto. Se o governo quer manter carvão, deve explicar o custo, o motivo e quem vai pagar.
Em conclusão, o estudo global não aponta apenas uma contradição ambiental. Ele mostra uma contradição política e econômica.
O Brasil diz que quer liderar a transição energética. Entretanto, quando chega a hora de mexer nos interesses instalados, o carvão continua queimando — e o consumidor continua pagando.