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Registros do Planalto confirmam encontros entre Vorcaro e operador ligado ao governo Lula em meio a denúncias de propina
Documentos oficiais do Palácio do Planalto e mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, revelam encontros do empresário com Júlio Cezar, apontado pelo ex-banqueiro como intermediário de um suposto esquema de propinas envolvendo pessoas ligadas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
As informações foram divulgadas pela revista Veja e repercutidas pela Revista Oeste nesta quarta-feira (14). Os registros confirmam visitas e articulações de agendas, mas não comprovam, por si só, o pagamento de propinas ou a participação de autoridades em crimes.
Além disso, os documentos apresentam informações que coincidem com relatos incluídos em uma proposta de delação de Vorcaro. A Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), entretanto, rejeitaram a proposta diante da ausência de provas suficientes para sustentar as acusações.
Revista Oeste
Registros do Planalto revelam encontros entre Vorcaro e operador ligado ao governo Lula
Os registros oficiais mostram que Daniel Vorcaro e Júlio Cezar entraram juntos no Palácio do Planalto em 1º de março de 2024, às 14h33.
Segundo Vorcaro, o encontro envolveu o ministro Alexandre Padilha, Olavo Noleto e outros interlocutores. O empresário afirmou que Padilha teria indicado Noleto como responsável por conduzir as tratativas.
Ainda conforme o relato do ex-banqueiro, Padilha teria dito que negociar com Noleto equivaleria a negociar diretamente com o próprio ministro.
Banco Master teria buscado investimentos bilionários de fundos de pensão
A suposta operação envolveria a liberação de investimentos de fundos de pensão no Banco Master.
De acordo com Vorcaro, o grupo pretendia captar até R$ 10 bilhões de entidades ligadas à Caixa Econômica Federal, ao Banco do Brasil, à Petrobras e aos Correios.
Entre as instituições mencionadas estavam:
- Previ: Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil.
- Petros: Fundação Petrobras de Seguridade Social.
- Postalis: Instituto de Previdência Complementar dos Correios.
- Funcef: Fundação dos Economiários Federais.
Segundo a acusação apresentada pelo empresário, os intermediários teriam exigido uma comissão de 10% sobre os valores captados.
Portanto, caso o plano alcançasse o montante máximo de R$ 10 bilhões, a cobrança alegada poderia representar R$ 1 bilhão. Trata-se, contudo, de uma projeção matemática baseada no relato de Vorcaro, e não de um pagamento comprovado.
Vorcaro relata cobrança de propina após reunião com integrantes ligados ao governo Lula
Vorcaro afirmou que recebeu Júlio Cezar, Olavo Noleto e um primo de Noleto em sua residência, em Brasília, depois da reunião no Planalto.
Segundo seu relato, os participantes teriam condicionado o acesso aos recursos da Previ, da Petros e do Postalis ao pagamento de propinas.
Além disso, o empresário declarou que Júlio recebeu R$ 500 mil como pagamento inicial depois de uma autorização formal para o Banco Master atuar junto aos fundos.
O dinheiro teria circulado por meio de um contrato simulado com outra empresa. Vorcaro afirmou que poderia apresentar recibos aos investigadores.
Entretanto, a PF e a PGR não consideraram os elementos apresentados suficientes para avançar com a investigação dessas acusações.
Mensagens de celular mostram articulação de reuniões em Brasília
Outro registro oficial confirma que Vorcaro e Júlio Cezar acessaram juntos o Palácio do Planalto em 3 de abril de 2024, às 17h29.
Mensagens recuperadas pela Polícia Federal mostram conversas entre os dois sobre compromissos na capital federal.
Em 28 de março, Júlio perguntou se o banqueiro viajaria para participar de outras reuniões. Vorcaro respondeu que a viagem tinha como objetivo apenas aquele compromisso.
Dois dias depois, o empresário cobrou a confirmação da agenda. Júlio afirmou que tentaria organizar os encontros para a quarta-feira seguinte.
Além disso, em 1º de abril, o intermediário pediu que Vorcaro reservasse tempo para conversar com determinadas pessoas depois da reunião.
Na proposta de delação, Vorcaro identificou essas pessoas como Alexandre Padilha e Olavo Noleto, então secretário-executivo.
As mensagens também mostram que Júlio procurou confirmar o horário de chegada do empresário a Brasília.
Banco Master buscava R$ 500 milhões no Postalis
No dia do segundo acesso ao Planalto, Vorcaro também compareceu à sede do Postalis, fundo de pensão dos funcionários dos Correios.
A Polícia Federal encontrou no celular do empresário uma tabela que indicava a intenção de captar R$ 500 milhões por meio de títulos financeiros descritos na reportagem como papéis de baixa qualidade.
Júlio Cezar também enviou uma mensagem informando que aguardava Vorcaro em uma sala.
Posteriormente, os dois seguiram para o Palácio do Planalto, conforme os registros de acesso.
Padilha participou de jantar na residência de Vorcaro
As mensagens analisadas também indicam que Alexandre Padilha participou de um jantar na residência de Daniel Vorcaro dias depois das reuniões.
Outro episódio mencionado envolve Richard Back, chefe de gabinete indicado posteriormente por Padilha para presidir a Funcef.
Registros mostram que Back e Vorcaro participaram de uma reunião no Planalto em 2023 para discutir investimentos.
No entanto, Júlio Cezar não participou daquele encontro. Segundo a reportagem, ele conheceu Vorcaro somente em março de 2024, depois de interferir em uma tentativa de agendamento de reunião na Petros.
A reportagem também informa que Vorcaro encontrou Lula em dezembro de 2024, sem registro na portaria. Além disso, mensagens indicam que o gabinete de Padilha tentou organizar uma reunião entre o empresário e o presidente em outubro daquele ano.
Reportagens sobre o Banco Master teriam interrompido negociações
Segundo Daniel Vorcaro, as negociações para captar recursos dos fundos de pensão avançaram até a divulgação de reportagens sobre operações envolvendo o Banco Master.
Em 12 de julho de 2024, o jornal O Globo informou que dois gerentes da Caixa Asset haviam perdido seus cargos.
Os profissionais tinham apresentado parecer contrário à aplicação de R$ 500 milhões no Banco Master.
Consequentemente, segundo a versão do empresário, a repercussão pública levou integrantes do grupo que ele associou a Padilha e dirigentes de fundos de pensão a adiar os investimentos.
Vorcaro também afirmou que o grupo teria recebido R$ 6 milhões em propinas para intermediar recursos de um fundo municipal. A reportagem não apresenta comprovação independente desse suposto pagamento.
Governo Lula enfrenta questionamentos sobre relações com o Banco Master
As revelações colocam novamente sob atenção pública as relações entre o Banco Master, intermediários privados e integrantes da administração federal.
Para a fiscalização dos recursos de previdência complementar, a questão central envolve a transparência das reuniões, os critérios de investimento e a eventual influência de agentes políticos sobre decisões financeiras.
Por outro lado, é necessário distinguir os fatos documentados das acusações apresentadas pelo ex-banqueiro.
Os registros comprovam acessos ao Planalto, enquanto as mensagens ajudam a reconstruir a articulação das agendas. Entretanto, esses elementos não demonstram automaticamente a existência de um esquema criminoso.
Padilha e Olavo Noleto negam irregularidades
Procurados pela imprensa, Alexandre Padilha e Olavo Noleto rejeitaram as acusações e negaram qualquer envolvimento em irregularidades.
Júlio Cezar, por sua vez, não respondeu aos questionamentos apresentados pela reportagem.
Além disso, a proposta de delação de Vorcaro não recebeu aprovação da Polícia Federal nem da Procuradoria-Geral da República.
O caso envolve alegações graves sobre possíveis tentativas de direcionar recursos de fundos de pensão para uma instituição financeira privada.
A principal questão agora é esclarecer a finalidade das reuniões, a natureza das negociações e se houve alguma vantagem indevida. Até que novas provas apareçam, as acusações permanecem sem comprovação suficiente, apesar da existência de registros oficiais dos encontros.