Brasil
Lula usa Petrobras para turbinar agenda de investimentos e obras em ano eleitoral
Os investimentos da Petrobras ganharam espaço crescente na agenda pública de Lula em 2026, justamente no ano em que o presidente disputa a reeleição.
Segundo levantamento da Folha de S.Paulo, Lula participou, apenas no primeiro semestre, de eventos que anunciaram R$ 120 bilhões em investimentos bancados pela Petrobras ou suas subsidiárias. Dos 14 compromissos públicos envolvendo a estatal neste mandato, seis aconteceram nos primeiros seis meses deste ano.
A frequência aumentou conforme as eleições se aproximaram. Em 2023, não houve compromisso desse tipo; em 2024 e 2025, foram quatro em cada ano.
Investimentos da Petrobras ganham espaço na agenda de Lula em 2026
O levantamento considerou informações da agenda presidencial compiladas pela agência Fiquem Sabendo, especializada em transparência pública.
Reuniões privadas com os presidentes da Petrobras, primeiro Jean Paul Prates e depois Magda Chambriard, ficaram fora da contagem. Outros eventos fechados também não entraram no cálculo.
Além disso, o aumento das cerimônias ocorre enquanto Lula busca renovar seu mandato nas eleições de outubro.
O maior anúncio acompanhado pelo presidente em 2026 envolveu R$ 72,5 bilhões em Sergipe. Os recursos abrangem projetos de petróleo e gás em águas profundas e a retomada da produção de uma fábrica de fertilizantes, embora o desembolso não aconteça de uma só vez.
Lula mistura investimentos da Petrobras com recados políticos
Durante o evento de Sergipe, realizado em 29 de maio, Lula também utilizou o discurso para entrar no embate político.
O presidente criticou adversários e fez referência indireta ao senador Flávio Bolsonaro, seu principal rival na campanha segundo a reportagem. A fala tratou da relação do adversário com os Estados Unidos e de temas ligados à política externa.
Portanto, o evento empresarial também abriu espaço para mensagens relacionadas à disputa eleitoral.
Esse detalhe chama atenção porque os investimentos da Petrobras envolvem recursos de uma companhia controlada pela União, mas que possui milhões de acionistas e capital privado.
Petrobras anunciou R$ 37 bilhões em investimentos em São Paulo
O segundo maior pacote apresentado em evento com Lula somou R$ 37 bilhões em São Paulo.
A cerimônia ocorreu em 18 de maio, na Refinaria de Paulínia. Desse montante, R$ 6 bilhões tinham como destino a própria unidade.
Na ocasião, Lula criticou a privatização da BR Distribuidora durante o governo anterior.
Além disso, o presidente voltou a falar da Operação Lava Jato, investigação que revelou esquemas de corrupção envolvendo a Petrobras e outras empresas. Lula sustentou no evento que a operação prejudicou a imagem da estatal.
Investimentos da Petrobras chegaram a diferentes Estados
A agenda de 2026 não ficou concentrada em Sergipe e São Paulo.
Também houve anúncios de R$ 5 bilhões em Mato Grosso do Sul, em 25 de junho; R$ 2,8 bilhões no Amazonas, em 27 de maio; e R$ 2,8 bilhões no Rio Grande do Sul, em 20 de janeiro.
Na Bahia, o anúncio realizado em 14 de maio chegou a R$ 100 milhões.
Consequentemente, Lula participou de eventos da estatal em diferentes regiões do país antes do início das restrições impostas pelo calendário eleitoral.
Investimentos da Petrobras no PAC chegam a R$ 323 bilhões
A Petrobras possui R$ 323 bilhões em investimentos previstos no PAC, programa de obras e investimentos do governo Lula.
No entanto, esses valores abrangem períodos superiores a um ano. Portanto, anúncios bilionários não significam necessariamente que todo o dinheiro será desembolsado imediatamente.
A composição acionária também ajuda a dimensionar a discussão sobre a companhia.
O governo federal controla a Petrobras porque detém a maioria das ações com direito a voto. Entretanto, considerando ações ordinárias e preferenciais, a União possui 36,26% do capital total.
Investidores estrangeiros detêm 47,64%, enquanto investidores brasileiros possuem outros 16,1%.
Governo Lula defende presença nos eventos da Petrobras
O Palácio do Planalto rejeita a interpretação de que a agenda represente uso indevido da estatal.
Segundo a Secom, Lula participa das cerimônias pela importância dos projetos para desenvolvimento econômico, geração de empregos e capacidade produtiva brasileira. O governo também afirma que os eventos respeitam os processos de governança e critérios técnicos internos da Petrobras.
A estatal apresentou argumento semelhante.
A Petrobras afirmou que os projetos avançam somente depois do cumprimento dos procedimentos de governança. Além disso, disse que a presença de autoridades aumenta a repercussão das iniciativas na imprensa e nas redes sociais.
Lula participou de mais eventos da Petrobras que Bolsonaro em período equivalente
A comparação feita pela Folha mostra uma diferença relevante entre os dois governos.
No primeiro semestre de 2022, quando Jair Bolsonaro buscava a reeleição, o então presidente participou de um evento público diretamente relacionado à Petrobras. Foi uma visita a uma unidade de processamento de gás em Itaboraí, no Rio de Janeiro, sem anúncio de investimentos.
Em contraste, Lula participou de seis compromissos ligados à estatal no primeiro semestre de 2026.
Os dois presidentes também defenderam estratégias diferentes para a companhia. Lula sustenta a manutenção do controle estatal e uma política de expansão de investimentos, enquanto Bolsonaro defendeu a privatização e seu governo promoveu vendas de ativos.
Preços dos combustíveis também entraram na disputa política
O histórico da Petrobras mostra que sua relação com o poder político não começou agora.
Preços da gasolina e do diesel costumam provocar desgaste em governos. No início do atual mandato, Lula alterou a política de preços da companhia, reduzindo a frequência dos reajustes, enquanto especialistas apontaram em diferentes momentos diferenças em relação às referências internacionais.
Em 2022, Bolsonaro também enfrentou pressão causada pelos combustíveis.
Naquele ano, o então presidente promoveu mudanças na direção da Petrobras diante das altas de preços às vésperas da eleição. Portanto, a relação entre política, estatal e combustível permanece um tema sensível independentemente do governo.
Investimentos da Petrobras foram anunciados antes do defeso eleitoral
Todos os compromissos contabilizados pela reportagem aconteceram antes de 4 de julho, início do chamado defeso eleitoral.
A legislação passa a limitar determinadas atividades de agentes públicos durante o período eleitoral, incluindo situações envolvendo anúncios e inaugurações. O objetivo dessas restrições é impedir o uso da máquina pública em benefício eleitoral de governantes ou candidatos.
Lula disputará a reeleição em outubro.
Consequentemente, o crescimento da presença dos investimentos da Petrobras na agenda presidencial durante o primeiro semestre ganha relevância política, embora Planalto e estatal sustentem razões institucionais e econômicas para as cerimônias.
Petrobras volta ao centro do debate em ano de eleição
Os números mostram que a Petrobras voltou a ocupar posição central na estratégia pública do governo.
Foram seis compromissos no primeiro semestre de 2026, R$ 120 bilhões em anúncios acompanhados por Lula e um portfólio de R$ 323 bilhões da companhia previsto no PAC.
Por outro lado, os recursos pertencem a projetos empresariais que seguem cronogramas próprios, e os valores anunciados não representam desembolso imediato.
Em conclusão, a proximidade entre a agenda presidencial e os investimentos da Petrobras aumentou justamente quando o Brasil entrou no ano eleitoral.
O governo argumenta que a presença de Lula dá visibilidade a projetos estratégicos e à geração de empregos. Os dados levantados pela Folha, entretanto, mostram que a frequência dessas aparições cresceu significativamente em 2026, colocando novamente a relação entre Petrobras, governo e eleições no centro do debate político.