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Dívida pública, juros altos e inadimplência: as 4 bombas econômicas que Lula terá de enfrentar no próximo governo
Economistas alertam para o avanço da dívida pública, o custo elevado dos juros, o endividamento recorde das famílias e a insegurança jurídica. Sem mudanças na política econômica, o Brasil poderá enfrentar dificuldades de crédito e crescimento nos próximos anos.
A dívida pública do Brasil será um dos principais desafios do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante seu quarto mandato, que começa em janeiro de 2027. Além disso, o governo terá de enfrentar juros elevados, famílias endividadas e preocupações com a segurança jurídica.
Segundo reportagem da Gazeta do Povo, publicada nesta segunda-feira (26), especialistas identificaram quatro problemas que ameaçam a estabilidade da economia brasileira. O levantamento aponta que a continuidade dos desequilíbrios fiscais poderá dificultar o crescimento e aumentar o custo do crédito.
Além disso, economistas ouvidos pelo jornal avaliam que a estratégia de estimular o consumo sem ganhos suficientes de produtividade enfrenta limitações. Entretanto, a dimensão dos riscos dependerá das decisões econômicas adotadas nos próximos anos.
Para Rodrigo Sgavioli, responsável pela área de alocação da XP Investimentos, o país combina estímulos fiscais com uma política monetária restritiva. Consequentemente, o aumento dos gastos pressiona a inflação, enquanto o Banco Central utiliza juros elevados para tentar controlá-la.
Dívida pública do Brasil pode chegar a 91,5% do PIB
A primeira preocupação apresentada pelos especialistas envolve o crescimento acelerado da dívida pública.
Segundo a Gazeta do Povo, projeções apontam que o endividamento brasileiro poderá alcançar entre 85% e 91,5% do Produto Interno Bruto (PIB), dependendo do cenário e do período considerado.
Além disso, a velocidade de crescimento da dívida mais que dobrou durante o terceiro mandato de Lula, conforme a análise apresentada pelo jornal.
O problema ganha importância porque o governo precisa financiar despesas obrigatórias e pagar os juros dos títulos públicos.
Entretanto, quando as despesas crescem mais rapidamente que a arrecadação, o Tesouro Nacional enfrenta dificuldades adicionais para estabilizar o endividamento.
Mais de 90% do orçamento federal envolve despesas obrigatórias
Outro desafio está na composição das despesas públicas.
Segundo os especialistas consultados, mais de 90% dos gastos federais possuem caráter obrigatório, o que limita a capacidade de ajuste do governo.
Entre essas despesas estão aposentadorias, benefícios sociais, salários e outras obrigações previstas em lei.
Além disso, o crescimento automático de determinadas despesas reduz o espaço disponível para investimentos públicos.
Consequentemente, qualquer tentativa de reorganizar as contas exige decisões sobre regras orçamentárias e prioridades de gasto.
A economista Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia da Tendências Consultoria, avalia que o arcabouço fiscal perdeu credibilidade devido às exceções criadas para determinadas despesas.
Entretanto, o governo Lula tem defendido a manutenção de políticas sociais e rejeitado propostas que reduzam o crescimento real de benefícios.
Juros da dívida pública custaram R$ 1,3 trilhão em 2025
A segunda preocupação envolve os juros elevados e seus efeitos sobre o orçamento federal.
Segundo a reportagem, o setor público brasileiro gastou aproximadamente R$ 1,3 trilhão com juros em 2025, valor equivalente a cerca de 9% do PIB.
Além disso, mais da metade da dívida pública possui remuneração diretamente vinculada à taxa Selic.
Isso significa que a elevação dos juros pode aumentar rapidamente o custo de financiamento do governo.
Entretanto, o Banco Central utiliza a política monetária para controlar a inflação e preservar o poder de compra da moeda.
Portanto, o desafio envolve equilibrar a estabilidade dos preços com a sustentabilidade das contas públicas.
Juros altos também encarecem empréstimos e financiamentos
O aumento dos juros não afeta apenas o governo federal.
Famílias e empresas também enfrentam custos maiores quando precisam contratar empréstimos ou financiar investimentos.
Além disso, as taxas elevadas podem reduzir o consumo e dificultar a expansão das atividades produtivas.
O economista José Márcio Camargo, da Genial Investimentos, avalia que a recuperação da confiança fiscal ajudaria a diminuir os juros de longo prazo.
Segundo ele, um ajuste inicial equivalente a 1% a 1,5% do PIB poderia contribuir para colocar a dívida em trajetória de queda a partir de 2030.
Por outro lado, Alessandra Ribeiro considera que um superávit primário próximo de 2,5% do PIB poderia ser necessário em determinadas condições.
Portanto, os especialistas concordam sobre a necessidade de melhorar as contas públicas, mas apresentam diferenças quanto ao tamanho do ajuste.
Endividamento das famílias atinge níveis recordes no Brasil
A terceira preocupação envolve a situação financeira dos consumidores brasileiros.
Segundo dados do Banco Central citados pela Gazeta do Povo, as famílias comprometeram 28,7% da renda com o pagamento de dívidas no Sistema Financeiro Nacional em julho de 2026.
O percentual representa o maior nível da série histórica iniciada em 2005.
Além disso, a taxa média de juros das operações de crédito livre para pessoas físicas chegou a 61,7% ao ano em agosto.
Consequentemente, muitas famílias precisam destinar uma parcela crescente da renda ao pagamento de parcelas e encargos financeiros.
Entretanto, o endividamento não significa necessariamente inadimplência. Uma pessoa pode possuir financiamentos e empréstimos e manter todos os pagamentos em dia.
Brasil chegou a 83,9 milhões de consumidores negativados
Os números da inadimplência também preocupam os especialistas.
Segundo a Serasa, o Brasil registrou 83,9 milhões de consumidores negativados em agosto de 2026.
Além disso, o resultado representou o vigésimo mês consecutivo de crescimento do indicador.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) também identificou um elevado nível de endividamento.
Em setembro, 81,7% das famílias brasileiras possuíam algum tipo de dívida, conforme os dados mencionados pela reportagem.
Consequentemente, o comprometimento da renda limita a capacidade de consumo e pode afetar o desempenho do comércio.
Empresas também enfrentam dificuldades para pagar dívidas
A situação financeira das empresas brasileiras apresenta sinais de pressão.
Segundo a Serasa Experian, aproximadamente 9,3 milhões de CNPJs estavam inadimplentes em agosto de 2026.
Além disso, a concentração do problema ocorreu principalmente entre micro e pequenas empresas e negócios do setor de serviços.
A reportagem também menciona dificuldades financeiras enfrentadas por grandes grupos empresariais, como Raízen, Cosan e CSN.
Algumas companhias buscam vender ativos e reorganizar suas operações para reduzir o endividamento.
Entretanto, os problemas de cada empresa possuem causas específicas e não decorrem exclusivamente da política fiscal federal.
Insegurança jurídica é apontada como quarta ameaça à economia
A quarta preocupação apresentada pela Gazeta do Povo envolve a previsibilidade das regras para empresas e investidores.
Segundo os especialistas, mudanças frequentes na legislação e nas decisões administrativas podem aumentar a percepção de risco.
Além disso, a insegurança jurídica dificulta o planejamento de investimentos que exigem compromissos financeiros de longo prazo.
A reportagem apresenta como exemplo a proibição das apostas esportivas durante a campanha eleitoral de 2026.
O setor havia recebido autorizações para funcionar mediante o pagamento de outorgas de R$ 30 milhões por empresa.
Entretanto, após anunciar a proibição, o governo afirmou que não devolveria os valores pagos pelas companhias.
Mudanças nas regras podem afetar investimentos privados
A alteração de regras depois da realização de investimentos pode provocar disputas administrativas e judiciais.
Além disso, empresas consideram a estabilidade regulatória antes de construir fábricas, contratar funcionários ou ampliar operações.
Para os economistas consultados, o respeito aos contratos e a previsibilidade institucional ajudam a melhorar o ambiente de negócios.
Entretanto, o poder público também possui responsabilidade de fiscalizar atividades econômicas e atualizar normas quando necessário.
Portanto, o desafio está em conciliar a atuação regulatória do Estado com a segurança jurídica dos investimentos.
Especialistas defendem ajuste fiscal para conter a dívida pública
Diante dos quatro problemas, economistas apresentaram propostas para melhorar a trajetória das contas públicas.
Entre elas está a criação de uma regra fiscal que considere diretamente a relação entre dívida pública e PIB.
Segundo a proposta discutida na reportagem, enquanto a dívida permanecer acima de 80% do PIB, o governo deveria limitar o crescimento real das despesas.
Além disso, a regra poderia permitir maior flexibilidade conforme o endividamento diminuísse.
A intenção seria reduzir a necessidade de financiamento do Tesouro e recuperar a confiança dos investidores.
Entretanto, mudanças dessa natureza exigiriam decisões políticas e, em determinados casos, aprovação do Congresso Nacional.
Salário mínimo, aposentadorias e BPC entram nas propostas de ajuste
Entre as medidas discutidas está a revisão temporária das regras de reajuste de determinadas despesas obrigatórias.
Alessandra Ribeiro defende que, em períodos de maior pressão fiscal, benefícios como aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) poderiam acompanhar apenas a inflação.
Além disso, a proposta incluiria mudanças na política de valorização do salário mínimo.
O objetivo seria conter o crescimento das despesas públicas sem reduzir nominalmente os benefícios.
Entretanto, Lula se posicionou contra essas alterações durante a campanha eleitoral.
Portanto, a adoção dessas medidas dependeria de uma mudança na orientação econômica do governo e de negociações legislativas.
Mudanças nos gastos com saúde e educação poderiam economizar até R$ 53,6 bilhões
Outra proposta apresentada pelos especialistas envolve as regras de correção dos pisos constitucionais de saúde e educação.
Segundo estimativas da Genial Investimentos, a atualização desses valores apenas pela inflação poderia gerar economia acumulada entre R$ 40 bilhões e R$ 53,6 bilhões até 2030.
Além disso, os economistas defendem uma reforma administrativa para controlar despesas com pessoal e combater supersalários.
A lista também inclui uma redução de 10% nos gastos tributários não constitucionais que não apresentam avaliação de resultados.
Entretanto, alterações nos pisos de saúde e educação envolvem escolhas sobre financiamento de serviços públicos essenciais.
Consequentemente, os efeitos sociais dessas medidas também precisariam entrar na análise.
Reforma administrativa e redução de benefícios fiscais são alternativas
A reforma administrativa aparece entre as propostas de contenção das despesas públicas.
Segundo os especialistas, mudanças na estrutura de gastos com pessoal poderiam ajudar a melhorar o equilíbrio fiscal.
Além disso, a revisão de benefícios tributários permitiria avaliar se determinadas renúncias de receita produzem resultados econômicos suficientes.
O objetivo seria direcionar recursos públicos para políticas com maior retorno social e econômico.
Entretanto, a Gazeta do Povo destaca que Lula não apresentou disposição para implementar parte dessas medidas durante a campanha.
Portanto, ainda existe incerteza sobre quais reformas o governo poderá priorizar a partir de 2027.
Dívida pública e juros podem limitar crescimento da economia até 2031
A combinação de dívida crescente, juros elevados e dificuldades de crédito pode reduzir o ritmo de expansão econômica.
Segundo a análise da Gazeta do Povo, o Brasil corre o risco de enfrentar um período prolongado de baixo crescimento caso não consiga reorganizar suas contas.
Além disso, a recuperação do grau de investimento poderá exigir entre seis e dez anos de disciplina fiscal contínua, conforme as estimativas apresentadas.
O grau de investimento representa uma classificação de risco que influencia a percepção de investidores internacionais.
Entretanto, essas projeções dependem de fatores como crescimento do PIB, arrecadação, inflação e decisões de política econômica.
Energia limpa, minerais críticos e tecnologia podem impulsionar investimentos
Os especialistas também identificam oportunidades de crescimento em setores estratégicos.
Rodrigo Sgavioli destaca áreas como energia limpa, minerais críticos e centros de processamento de dados, conhecidos como data centers.
Além disso, reformas que aumentem a produtividade podem melhorar a capacidade de crescimento da economia brasileira.
O desenvolvimento desses setores exige investimentos em infraestrutura, tecnologia e qualificação profissional.
Por outro lado, a expansão econômica também depende de condições favoráveis de financiamento e estabilidade regulatória.
Portanto, o ajuste das contas públicas não representa a única dimensão da política econômica necessária para sustentar o crescimento.
O que Lula terá de fazer para evitar uma crise econômica no próximo mandato?
A reportagem da Gazeta do Povo reúne avaliações de especialistas que defendem mudanças estruturais na condução da economia.
As propostas incluem controle das despesas, melhoria da segurança jurídica, redução dos custos financeiros e reformas para aumentar a produtividade.
Além disso, os economistas consideram importante apresentar medidas capazes de recuperar a confiança dos investidores logo no início do mandato.
Entretanto, não existe consenso absoluto sobre o tamanho do ajuste fiscal ou sobre quais despesas devem sofrer alterações.
O governo também precisa considerar os efeitos das decisões sobre a renda das famílias e a oferta de serviços públicos.
Os quatro principais desafios econômicos para 2027
Em síntese, a análise identifica quatro problemas que exigirão atenção do governo federal:
- Dívida pública elevada: crescimento do endividamento e dificuldade para equilibrar receitas e despesas.
- Juros altos: aumento dos custos financeiros do governo, das empresas e dos consumidores.
- Endividamento privado: comprometimento recorde da renda familiar e crescimento da inadimplência empresarial.
- Insegurança jurídica: mudanças nas regras que podem dificultar investimentos e elevar a percepção de risco.
Em conclusão, o quarto mandato de Lula começará com desafios importantes para a política econômica brasileira.
Além disso, as decisões tomadas nos primeiros meses poderão influenciar a trajetória da dívida pública, dos juros e do crédito.
Entretanto, uma crise econômica não é um resultado inevitável. Seu risco dependerá das políticas adotadas, das condições internacionais e da evolução dos indicadores fiscais.